terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Lupa

Ela olhou ao redor.
Os mesmos sorrisos, os mesmos olhares e o mesmo papel de parede descolando nas bordas da sala.
Nada havia mudado. Mas ela sim.

Ela mudou, completamente. Não sabia se pra melhor, ou pra pior. Mas estava feliz por ter mudado.
Ela se encontrou, encontrou sua própria vida, seu próprio estilo. Mudou o cabelo; o suficiente para chamar de mudança, mas nada radical a ponto de parecer diferente.
Frequentou novos lugares, experimentou novas bebidas e vestiu uma saia justa. Só para saber como se sentia. Se sentiu bem.

Pela primeira vez entendia o que significava se sentir bem.
Descobriu que não precisava ter tudo aquilo que via de bonito nos outros. Ela tinha o próprio jeito de ser bonita.
E, aos poucos, todos foram percebendo isso também.

Ela se tornou aquele tipo de pessoa interessante, que não entende sobre todos os assuntos, mas se interessa pelo que você estiver falando.

Ela sorriu com vontade, beijou com ousadia e abraçou com afeto.
Ela conheceu gente, desbravou lugares e foi encontrando o seu lugar naquele espaço, antes misterioso, chamado mundo.

E percebeu o que todos já sabiam...
Tudo havia mudado. Mas ela não.


Ela só precisava aprender a olhar com mais atenção.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O que não coube na mala...

Foram 6 dias, contando o trajeto da viagem. Parece pouco... 
E cinco mil quilômetros de distância. Parece muito...

Não sei precisar o número de pessoas que passaram por mim nesse tempo, e nesse caminho. 
Óbvio, foram muitas...
Do trem ao aeroporto, que me levava até outro aeroporto, e mais um avião até o destino. Fora o hotel, as viagens dentro do país, as filas pra alguma coisa, e por aí vai. 
Gente pra caramba.

E dessas muitas milhares de pessoas que cruzaram meu caminho teve o Raul, o homem feliz em estar trabalhando há um mês como condutor de um barquinho para turistas fazerem mergulho em alto mar, depois de um longo tempo desempregado.
Teve o Jorge, o pai de 5 filhos e despachante aduaneiro que também dirige caminhão, quando necessário, e que adorou Avenida Brasil e a música do Michel Teló.
Teve o Thomaz, o rapaz que trabalha dirigindo um carrinho de golfe 12 dias seguidos, para folgar 3.
E teve a senhora que precisou de oxigênio após embarcar no avião. E o rapaz que passou a noite de pé no avião para cuidar do filho que estava febril. E o casal que fez de tudo para conseguir viajar em assentos próximos; e o motorista do táxi que não dá conta de pagar o seguro do carro particular, a vovó que perdeu o documento de identidade e a namorada do cantor do bar que suspirava em cada música...
Teve muita gente.

Cada um com a sua história, suas preocupações, suas próprias lutas e motivações. 
Gente que, em nada, tem a ver comigo. E que talvez, e bem provavelmente, eu nunca mais vá encontrar na vida. Mas gente com uma vida tão ou mais interessante que a minha e que, em algum momento desses 6 dias e cinco mil quilômetros, deixou um pouco da sua vida comigo.

E aí que eu vi que a beleza em ser humano está na capacidade de a gente não só compreender, mas compartilhar as dores, os medos, as esperanças e as vitórias dos outros. Tudo isso desinteressadamente. Tudo isso sabendo que em nada a vitória do outro vai mudar a minha luta, mas que, mesmo assim, eu quero que ele vença. 
Isso, de verdade, é ter humanidade. É saber que aquele que te sorri, e aquele que nem te olha, são exatamente iguais, mesmo nas suas diferenças. Sofrem, sangram, lutam, comemoram e esperam, todos os dias, um final melhor nos seus enredos. E saber que, mesmo que isso não influencie em nada a nossa jornada, esperar pelo melhor na vida de alguém dá um pouco mais de sentido pra nossa.
Ser humano é compreender o valor de uma vida, sem julgar as escolhas alheias, e aceitar o fato de que cada história é única e bela. 

E isso não é algo que caiba em uma mala, em um coração e em uma vida apenas, mas que vale à pena ser carregado.