segunda-feira, 20 de julho de 2015

O que não coube na mala...

Foram 6 dias, contando o trajeto da viagem. Parece pouco... 
E cinco mil quilômetros de distância. Parece muito...

Não sei precisar o número de pessoas que passaram por mim nesse tempo, e nesse caminho. 
Óbvio, foram muitas...
Do trem ao aeroporto, que me levava até outro aeroporto, e mais um avião até o destino. Fora o hotel, as viagens dentro do país, as filas pra alguma coisa, e por aí vai. 
Gente pra caramba.

E dessas muitas milhares de pessoas que cruzaram meu caminho teve o Raul, o homem feliz em estar trabalhando há um mês como condutor de um barquinho para turistas fazerem mergulho em alto mar, depois de um longo tempo desempregado.
Teve o Jorge, o pai de 5 filhos e despachante aduaneiro que também dirige caminhão, quando necessário, e que adorou Avenida Brasil e a música do Michel Teló.
Teve o Thomaz, o rapaz que trabalha dirigindo um carrinho de golfe 12 dias seguidos, para folgar 3.
E teve a senhora que precisou de oxigênio após embarcar no avião. E o rapaz que passou a noite de pé no avião para cuidar do filho que estava febril. E o casal que fez de tudo para conseguir viajar em assentos próximos; e o motorista do táxi que não dá conta de pagar o seguro do carro particular, a vovó que perdeu o documento de identidade e a namorada do cantor do bar que suspirava em cada música...
Teve muita gente.

Cada um com a sua história, suas preocupações, suas próprias lutas e motivações. 
Gente que, em nada, tem a ver comigo. E que talvez, e bem provavelmente, eu nunca mais vá encontrar na vida. Mas gente com uma vida tão ou mais interessante que a minha e que, em algum momento desses 6 dias e cinco mil quilômetros, deixou um pouco da sua vida comigo.

E aí que eu vi que a beleza em ser humano está na capacidade de a gente não só compreender, mas compartilhar as dores, os medos, as esperanças e as vitórias dos outros. Tudo isso desinteressadamente. Tudo isso sabendo que em nada a vitória do outro vai mudar a minha luta, mas que, mesmo assim, eu quero que ele vença. 
Isso, de verdade, é ter humanidade. É saber que aquele que te sorri, e aquele que nem te olha, são exatamente iguais, mesmo nas suas diferenças. Sofrem, sangram, lutam, comemoram e esperam, todos os dias, um final melhor nos seus enredos. E saber que, mesmo que isso não influencie em nada a nossa jornada, esperar pelo melhor na vida de alguém dá um pouco mais de sentido pra nossa.
Ser humano é compreender o valor de uma vida, sem julgar as escolhas alheias, e aceitar o fato de que cada história é única e bela. 

E isso não é algo que caiba em uma mala, em um coração e em uma vida apenas, mas que vale à pena ser carregado.