E aí que eu decidi, finalmente, aceitar aquela 'saída pra jantar', afinal de contas ele tinha um sorriso adorável e depois de tanta insistência eu deveria ser alguém especial no mundo dele.
Fomos num tal de restaurante mexicano/árabe/turco ou sei lá o que, que continha pimenta em excesso. Se ele estava afim de me agradar deve ter dado com os burros n'água, já que eu só pensava na bomba atômica que eu ingeria e, pô, depois de tantos convites ele podia ter pesquisado um pouco e se dado conta que eu tenho problemas de úlcera. Enfim, eu comia, me preparava para a morte, e sorria. É incrível pensar nas coisas que uma mulher pode fazer quando quer agradar um cara.
Ele sorria de volta, como se estivesse por muito tempo esperado pelo meu sorriso, ou como se achasse graça da minha mais frustrada tentativa de fingir estar gostando daquela gosma. Pouco importa o por quê... Mas aquele sorriso, aquele olhar, e aquele perfume deviam ser banidos pelo Ministério da Saúde. Eu, mulher geração saúde, tive um princípio de taquicardia...
- Nós podíamos ter ido comer outra coisa... - ele cochichou.
Tarde demais, meu amigo. Pão com banha me serviria naquela hora.
Eu apenas ri...
Ele riu também.
Ele estava especialmente bonito naquela noite. E aquele sorriso, estranhamente, era a única coisa que me alimentava naquele lugar estranho. E, então, todas as piadas pareciam engraçadas, e tudo parecia no exato lugar em que devia estar... E, de repente, aceitar aquela janta foi a melhor decisão dos meus últimos dias, do meu último ano. Da minha vida inteira. De todas as minhas vidas...
E então, como nada pode ser perfeito, o telefone tocou. Era ele. Não este ele, aquele outro ele que tirou de mim qualquer esperança no futuro; qualquer esperança nos homens.
...Não atendi. Tocou de novo. Desliguei. Recebi uma mensagem: "Estou com saudades", como qualquer cara que não presta sente de uma mulher que deixou de pensar nele.
E aí eu olhei pra frente e vi o quão boba eu fui por tanto tempo. Dar esperanças pra um ideal, e não pra um cara. Pra uma fantasia e não pra algo tangível, algo real. Estava ali, comendo aquela coisa horrível, com um cara maravilhoso. Devia ter me dado conta, no primeiro momento, no dia em que nos conhecemos, que ele era o cara. Não teria perdido tempo com meus erros e minhas tentativas falhas de agradar garotos, enquanto existia um homem com vontade de me fazer feliz. Nós somos diferentes, verdade. Ele gosta deste tipo de comida meio, sei lá, estranha, e eu sei que não vamos combinar em tudo - talvez em quase nada - como eu sempre sonhei enquanto lia todos os livros de romance que eu li, mas ele sabe, como ninguém, fazer um jantar horrível se tornar num encontro ótimo.
E ele sorriu de novo, e perguntou:
- Quem era?
E eu suspirei, realmente aliviada, sorri - desta vez, de verdade - e corri pro abraço dele:
- Ninguém...
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